terça-feira, 18 de setembro de 2012

Seminario


RESUMO:

Trata-se de uma discussão sobre a arte do Butô, concepção estética japonesa do pós Segunda Guerra que estabeleceu interfaces com o teatro, a dança, o cinema e a música do século XX. O Seminário é organizado pelo Teatro MiMO com o Eixo de Estética do Curso de Psicologia da FANOR. A abertura será realizada pelo Prof. Daniel Lins retomando experiências do Butô na Cidade de Fortaleza, desde o final da década de 1990, com o aprofundamento de conceitos importantes na Filosofia Francesa. Dirige-se a acadêmicos e artistas de modo especial, pesquisadores, profissionais e estudantes que dialogam na via da ciência e da arte, com abertura a todos os interessados na cultura japonesa para o corpo. / Ação de formação continuada no Eixo de Estética da Ênfase Curricular em Psicologia, Instituições e Culturas, prosseguindo a Residência Artística em Butô, anteriormente realizada no mês de maio de 2012, na FANOR, com participação de acadêmicos e artistas.

*


I SEMINÁRIO ESTÉTICAS E SOMBRAS:

EXPERIMENTAÇÕES PÓS-BUTOH NO CEARÁ (15h/atv)

25 e 26 de setembro de 2012 (terça e quarta) – Fortaleza, Ceará

  
Realização do Teatro MiMO & do Curso de Psicologia da FANOR/DeVry Brasil (Eixo Estética/Ênfase Curricular de Psicologia, Instituições e Culturas); Apoio do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e do Grupo Aprendizes em Troca.

Atividade gratuita, inscrições no local e certificados à participação integral.

Informações: tomazdeaquino1@yahoo.com.br, andre_feitosa@msn.com


Participe! Conferência e Mesas de debates, apresentação dialogada de espetáculo, vídeo-debate, performance e experimentações práticas. Divulgue entre listas, grupos e contatos!
 

*


PROGRAMAÇÃO:

 

25 de setembro de 2012 (TERÇA-FEIRA)

 

INSCRIÇÕES NO LOCAL

 

A partir de 13h.

Salão de entrada para Auditório do Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura.

 

 

ATIVIDADE 1: CONFERÊNCIA DE ABERTURA (14h-15h30)

 

:: O Butô como Est-Ética do Acontecimento | Daniel Lins – Professor, UFC

 

:: Mediador para atividade: (a definir.)

Local - Auditório do Centro Cultural Dragão do Mar

 

 

ATIVIDADE 2: DEBATE SOnnBRAS DO BUTOH (15h30-16h30)

Problematizações em 15min/cada fala.

 

:: sombras em cenas | Juliana Weyne - Estudante de Teatro, IFCE

 

:: psikismos das sombras | Andre Feitosa - Professor, FANOR/DeVry Brasil

 

:: sombra e presença do Butoh no Ceará | Silvia Moura - Diretora, Centro de Experimentações em Movimento/CE

 

:: Mediador para atividade: Fernando Lira – IFCE.

Local - Auditório do Centro Cultural Dragão do Mar

 

 

ATIVIDADE 3: DEBATE MATAR OU MORRER (16h30-17h30)

Problematizações em 15min/cada fala.

 

:: negociadores da morte – processos de pistolagem | Yuri Sales - Professor, FANOR/DeVry Br. e UniChristus

 

:: dirigindo a/à morte – processos de direção | Tomaz de Aquino - Diretor, Teatro MiMO

 

:: dança da morte – processos corporais | Thiago Braga – Dançarino, Grupo Aprendizes em Troca/CE

 

:: Mediador para atividade: Danilo Castro – Crítico/Articulista do Jornal OPOVO.

Local - Auditório do Centro Cultural Dragão do Mar

 

 

ATIVIDADE 4: FÓRUM LIVRE DE PENSAMENTOS E SENSAÇÕES (17h30-18h30)

 

Intercâmbio de ideias para questões problematizadas durante a tarde e sugestões de atividades/articulações futuras.

 

:: Mediador para atividade: (a definir.)

Local - Auditório do Centro Cultural Dragão do Mar

 

 

ATIVIDADE 5: ESPETÁCULO COM DIÁLOGO (20h-21h30)

 

:: Espetáculo “Sakura Matsuri: O Jardim das Cerejeiras”, com elenco do Teatro MiMO - 20h | CLASSIFICAÇÃO: 14 ANOS, Bilheteria: R$ 2/ R$ 1, Resenha disponível em: http://www.dragaodomar.org.br/materias.php?pg=sakura

 

:: Diálogo sobre o espetáculo - 21h

 

Local - Teatro do Centro Cultural Dragão do Mar

 

 

26 de setembro de 2012 (QUARTA-FEIRA)

 

ATIVIDADE 6: VÍDEO-DEBATE (9h-12h)

:: Filme “HANAMI – JARDIM DE CEREJEIRAS” (2008, Alemanha/França, dirigido por Doris Dorrie)

 

:: Mediador para atividade: André Feitosa, FANOR

Local – Auditório 1 da FANOR (Av. Santos Dumont, 7800 – Dunas)

 

 

ATIVIDADE 7: EXPERIMENTAÇÕES PRÁTICAS DE BUTOH (15h-18h)

:: Um Corpo Vazio e Um Vazio do Corpo

 

:: Facilitador da atividade: Tomaz de Aquino, Teatro MiMO

Local – Praça Verde do Centro Cultural Dragão do Mar

 

Conclusão das atividades: intervenção “A Sombra de Ícaro” com Thiago Pinheiro Braga – Grupo Aprendizes em Troca.


 

BREVE CURRÍCULO DOS PARTICIPANTES:

 

DANIEL LINS é dos mais importantes intelectuais brasileiros. Autor/organizador com publicações em número superior a 20 livros, articulista para jornais/revistais de grande circulação, além de inúmeros ensaios/capítulos/artigos especializados. Pernambucano que adotou o Ceará como morada de muitos afetos embora se mantendo um cidadão planetário, orientador de trabalhos acadêmicos, professor e convidado em Universidades brasileiras e internacionais, investigador e apaixonado das culturas, em suas diversidades e potências que expressam vida. Filósofo, sociólogo, psicanalista e curador de eventos acadêmicos/artísticos, com doutorado realizado na Universidade de Paris VII e pós-doutorado em Paris VIII. Celebrado como um pensador fortemente crítico e não menos original, surpreendente e criativo, que se dedicou às discussões de Friedrich Nietzsche, de Antonin Artaud e de Gilles Deleuze, com novas possibilidades de interpretar facetas contemporâneas do existir, tais como o rock, o surfe, dentre outras manifestações. Escuta-lo, em Fortaleza, é sempre uma oportunidade de encantamentos estéticos e reflexivos.

 

JULIANA WEYNE – Estudante de Licenciatura em Teatro no IFCE, cantora lírica e atriz-pesquisadora de Artes Dramáticas do Japão com ênfase na dança Butoh. Atualmente participa do Projeto Oficinas de Ciências, Arte e Tecnologia, sob a orientação do professor Gilvandenys Leite Sales, cujo objetivo é desenvolver atividades científicas e culturais visando à divulgação das Ciências da Natureza e da Matemática por meio do teatro, exposições de arte, dança e música.

 

ANDRÉ FEITOSA – Psicólogo com formações humanistas (em psicoeducação e em psicoterapia), mestre em Relação de Ajuda e Intervenção Terapêutica e doutorando em Psicologias, ambos pela Universidade Autónoma de Lisboa. Psicoterapeuta e formador em Abordagem Centrada na Pessoa, professor que desenvolve investigações acadêmicas e estéticas no campo do Butô, dialogando com o obscuro pós-moderno, nas suas categorias de Homem Pós-Vínculo e Pós-Afeto e a produção de anti-psikismos/anti-objetos.

 

SILVIA MOURA – Bailarina, Coreógrafa, Atriz. Fez o Colégio de Direção como Atriz e o Colégio de Dança em Criação Coreográfica. Participou de cursos de Mimésis corpórea com o LUME/UNICAMP, de Butoh com Carlota Ikeda e Maura Baiochi, além do treinamento e montagem com o diretor Shimizu Shinjin - do Gekidan Kaitaisha/Teatro da Desconstrução (Japão). Atualmente, desenvolve trabalhos no CEM – Centro de Experimentações em Movimentos (2002/2012).

 

FERNANDO LIRA – Doutor em artes cênicas (UFBA), Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), graduado em Comunicação Social (UFC). Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Dramaturgia, atuando principalmente nos seguintes temas: teatro infantil, peça teatral e comédias. Atualmente, ensina no Curso de Licenciatura em Teatro do IFCE e é Coordenador do Grupo de Pesquisa Comicidade, Riso e Experimentos (CRISE) na mesma instituição.

 

YURI SALES – Psicólogo com formação clínica complementar, mestre em Psicologia com estadia na Universidade de Toronto (na qualidade de visiting-scholar) e doutorando em Psicologia na Universidade Autónoma de Lisboa. Psicoterapeuta e professor de Psicologia, interessado na fronteira e problemáticas emergentes entre a Justiça e o Psíquico, em especialmente, as negociações da morte no imaginário do sertão do Ceará.

 

TOMAZ DE AQUINODiretor Teatral e ator-pesquisador nas linhas de pesquisa da Mimica e do Teatro Físico. Graduado em Artes Cênicas pelo IFCE e formado pelo Curso de Arte Dramática da UFC. Atualmente, participa como pesquisador do grupo Poéticas do Corpo – de pesquisa e experimentação do corpo em teatro e dança, com registro no CNPQ, sob a orientação da professora doutora Mônica Braga Marçal, e dirige o Teatro MiMO, grupo que tem como foco de pesquisa cênica a mímica, o palhaço e a performance.

 

THIAGO BRAGA – Ator, dançarino. Formado pelo Curso Técnico em Dança do Ceará – SESC/SENAC/IACC, Curso de Artes Dramáticas - UFC, Graduando na licenciatura em Teatro pelo IFCE. Integrou o “Centro de Experimentações em Movimento”. Participa atualmente do grupo de treinamento e pesquisa “Aprendizes em Troca”, com investigações no corpo enquanto o lugar do “entre” na dança e no teatro, por meio do treinamento físico/energético, da dança contemporânea e do Butoh.

 

DANILO CASTRO – Ator graduado em Artes Cênicas, pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), estudante do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC). Atualmente escreve para o caderno Vida & Arte do Jornal O POVO e mantém o blog (www.odanilocastro.blogspot.com) com intuito de promover as artes cênicas com discussões e críticas.

 

<

 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

TE-RA-PY-RA-TE


...
Meu nome é André Feitosa. Estudo fenômenos e psiquismos classificados como pós-modernos. Meu interesse é discutir as configurações desse mundo Pós-Vínculo, com ausência de laços, de pertencimento e de narrativas definitivas: entre pessoas e seus dispositivos, especialmente. Originalmente, fui treinado no Humanismo Rogeriano, embora, por todos os atravessamentos/atrevimentos que construí, meu cotidiano mais recente orbita em torno dos conceitos de [h]omem-Sem-Kósmos, de Humanismo Pós-Afeto e de Arte Pós-Orgânica. Faço parte do Coletivo TE-RA-PY-RA-TE, discutindo concepções de vanguarda estética e desconstrução filosófica para as ações da terapéia. Espero encontra-los, se quiserem contribuir para o fim do sujeito moderno.
...
†Eros†.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

PsikisMó.vel

Um conto sobre o PsikisMó.vel ...

- Você não deve, nunca, em nenhuma hipótese, deixar os pés livres ou de qualquer maneira, retirar um ou o outro pé dos controles: há três pedais, freio, acelerador e embreagem... dura ou hidráulica, a embreagem sempre te ajuda com as marchas!

- Se você continuar dirigindo bem, sem multas e transgressões, por um tempo significativo, e esforçar-se o suficiente, você pode, inclusive, adquirir um mecanismo mais sofisticado: a marcha-automática... então, você será mais feliz! Porque você já é feliz, mas pode melhorar...

- Além de ser mais fácil, e demandar menos esforço, você geralmente pode olhar para o céu, pelo teto-solar - é uma vista muito bonita... Chegar mais rápido, com mais conforto, e menos ruído...

- Não se preocupe: depois de acostumado, você já se move sem pensar, nem precisa ocupar-se do que está fazendo... e com os novos modelos, há tecnologia de bordo!

...
- "Então, tudo deve ser o mais automático, deve o início?"

- É. Com mais esforço, ou com menos esforço nas marchas, mas deve ser automático, quase natural para você.

- "Então, no automático, com pedais ou sem pedais, automaticamente eu preciso estar dentro do carro..."

- Claro, movendo-se, deslocando-se, vivendo... vivendo, meu rapaz!

- "Moço, eu não dirijo".
- Impossível...

- "Moço, eu não tenho carro".
- Impossível...

- "Moço, meus pés, agora: olhe... livres e de qualquer maneira".
- Impossível...

- "Moço: meus pés, de qualquer maneira... eu, do lado de fora, com todo o ruído...
- Impossível: não existe ninguém se movendo com os pés livres... ninguém vive fora, com tanto ruído.
- Mover-se pressupõe que os pés estejam ocupados... todo mundo sabe disso!

- "Moço, eu não uso tele-móvel nem auto-móvel..."
- Impossível, rapaz...

- "Moço, o que é mover-se?"
- Meu rapaz: a vida Moderna exige um Carro para tudo... claro que você não chega longe com uma carroça com dois bois, seis bois e dois eixos...

- "Moço, eu não tenho carroça"
- Isso não é vida.
- "Moço, não é vida com deslocamentos que exijam pés ocupados em esforço mecânico"
...

‎- Ninguém, absoltamente ninguém, deve colocar a sua vida e a vida dos outros em risco: jamais colocar os pés, avulsos, balançando, descalços... muito! muito arriscado!
- "Moço, e todo mundo precisa dirigir?"
...

segunda-feira, 26 de março de 2012

FIRE

INOCULANDO O FOGO
Por André Feitosa

Disseram-me que os bailarinos enfrentam a gravidade – assim como os aviões, são milagres que derivam da técnica mais rigorosa: corpos de engenhosidades. Por várias demonstrações, nas salas de espetáculo ou nas oportunidades cada vez mais freqüentes; veiculadas, sobretudo, nos canais abertos, algo desse nosso corpo genérico, supostamente no contato estático da cadeira e pouco flexível no cotidiano, dali mesmo, acautelados da vertigem e do incômodo, apercebemo-nos da estranheza evocada por essa configuração "pacata" com a qual nos privamos de aprendizados mais significativos em nossas interações. Afortunadamente, todavia, há estes outros da nossa espécie, cujos saltos, vôos, flutuações e o improvável das suas rítmicas seqüestram-nos do óbvio para o despejo torrencial numa sensação de encanto. Era o primeiro sábado nas estrelas desse ano zodiacal, quando se viram movimentos de sombras e de potência, co./ga.metas de deslumbre que nos atravessam, e, às vezes, tão incrivelmente, nos emudecem atrás das nossas desventuras e pedidos secretos. Estávamos nas vizinhanças da lua mais forte em Áries, de Mercúrio, o Senhor da guerra e invasor das mudanças, e apresentações exóticas do moderno na dança percorreram Fortaleza. Não apenas a oferta de lugares superou as expectativas de ocupações, mas fartam os elogios que se difundem em um território de influências globalizadas e das mídias sociais. Originárias nas espacialidades urbanas caracteristicamente alternativas (leia-se, outrora marginalizadas, “desqualificadas” etc), trata-se de duas linguagens irmãs, no espírito de uma época criativa (por volta dos anos de 1960) – embora de parentesco geograficamente distante, nos objetivos, signos e tessituras gestuais. Quis-se, nas felizes coincidências que a vida instaura, encontrarem diferentes facetas da mesma Capital: de um lado, os movimentos recortados na dor e de provocativa lentidão, conduzidos nas trevas que findam por respingar delírio na platéia; na outra geometria, a estética sincrética da moda, do luxo, dos negócios e das transmissões virtualizadas, traduzida com uma pigmentação herege ao corpo pós-yuppies e pós-feminista (vg, Lady Gaga etc). Do imaginário pós-guerra do Japão ao centenário Teatro José de Alencar, Tadashi Endo encarna o singular do seu “Butoh” para um corpo híbrido dos inúmeros intercessores que assimilou, em uma carreira junto aos músicos, cineastas e dramaturgos, em campos do Jazz, da Ópera e da produção audiovisual alemã. Quarteirões opostos, dos Estados Unidos mitificado sob a influência do charme étnico e insinuoso do “Voguing”, do Harlem nova-iorquino no contra-fluxo e das intensas experimentações, Edgel Correa e sua Troll despistam aos hypster-atônitos..., com essa inabitual feição da energia masculina ao redesenhar os apelos embrutecidos da paixão e o paganismo na expressão dos desejos. Com sua estréia profissional nos tablados da MEET Music & Lounge, o clube vestiu-se do galanteio anfitrião que acolhe performances na tintura de luzes dirigidas em suas galerias. Se no “Butoh” do sansei Endo perseguem-se os dramas vivenciados no luto, na subtração e na despedida dos seus mestres, é no “Voguing” do belo Correa que se exterioriza a fissura do tempo prosaico numa via do sensível über-tecnológico com suas mutações. Lembrando o brilho audacioso de Daniel Peixoto, vêem-se aos raros corpos cinemáticos desses alquimistas pós-modernos, por vezes envoltos na penumbra da larga incompreensão: com maquiagem que não disfarça a inquietude no olhar, esse arché-tipo não cede à frustração nas curvas do destino, transmutando gólens imaginativos pelo ofício da sensorialidade épica. Dançam, porque a vida nunca lhes bastou – na lembrança de Gullar. Não há menos aflição, ainda que o artifício poético adote, sim, polaridades e vias magistrais (de magiar, mágico) peculiares: Tadashi aposta na contradição que, também suave, fez-nos embevecer; Edgel investe na alegria que pode intoxicar e liberar-nos da conformação míngua. Não sem razão, em seus respectivos cenários de difusão, ambas as linguagens desafiaram identidades hegemônicas e narrativas lineares, porquanto co-gestadas ao lado das turbulentas e seminais manifestações, que a posteriori, na transição dos séculos, convencionou-se enquanto um pensamento contemporâneo nas artes. Talvez, ainda não entendamos, como público geral, de quais modos desdobra-se a fragilidade imediata dos músculos e ossos em transformação cênica e dançante como estas que vimos. Quem imaginaria recriações de Butô com dançarinos da Bahia ou uma coreografia de Vogue emoldurada pelos afetos do Siará Grandi? Foi-se o tempo em que o “Butoh” e o “Voguing” eram codificações restritas aos grupos onde floresceram: desde Kazuo Ohno e Madonna, outros bailarinos descobriram alavancas para inventar a linguagem dos seus novos mundos. Nossa engenharia habitual dos corpos parados, reduzidos ao maquínico do YouTube e à ingestão de massa oleosa a frente do Facebook, quem sabe vislumbre em ocasiões como estas, as poucas razões que sacrificam nossa inércia consensual. Petrificados, somos apenas barro nas mãos aquosas desses sonhos terceiros. Servem-nos, afinal, dessa ionização sexual que não teríamos por nós mesmos. Danças que rivalizam, confrontam, resistem, perlaboram, disputam: é razoável decifrar a alma por trás da idéia? Sob o reflexo dos nossos ícones, projéteis dançam algorítmos para nós: no mesmo exorcismo dos monges, que do Butão, monopolizam a espiritualidade que não veremos como nossa.

quinta-feira, 15 de março de 2012

águas daquele março

Era uma vez, era um domingo, era também 16, era o final daquela tarde, e a vida mudou, era (um)a vez de novos sonhos, e um destino que se coloriu. Era vez do tempo, na olaria dos encontros e surpresas, das possibilidades inusitadas. Era uma vez, uma década, um horizonte. Naquela vez, sonhou-se por 50 anos juntos. E já se foi-se uma quinta enorme daquele pedido outrora gigante. Era uma vez, um moço, seria eu, e brevemente viria 2023, o 33, o 43, o 53... o homem, quem sabe, já teria poucos meses além dos seus 70 alcançados, e o meio século de conjugalidades, de reciprocidades, de afetuosidades. Atrás dos seus olhos, percorrendo acontecidos, o mesmo homem lembra daquela tarde, era quase os seus 30, quando lhe pediu a mão e o destino nela inscrito. Guardou para si com amabilidade. Era quase uma vez inteira de muitas estações em dez anos, mas tudo recomeçou, e foi tão bonito: ficção e sonhos da noite em chuvisco. Feliz dezesseis, nas águas daquele março e seu anoitecer. Salve, esse amor que antecede o Equinócio de Outono. Águas daquele marco...