sábado, 14 de março de 2009

Experiência #009

["... São as águas de março fechando o verão/ É promessa de vida no teu coração..."


Sábado, agora, 19h. Hoje, pela manhã, começou a nova turma da Formação em ACP (coordenada por mim e pela Ticiana Paiva, com participação docente do Prof. Cavalcante Jr).



A Tici é uma parceira especial, de vários outros encontros na vida, ela é também Psicóloga, Humanista e Pragmatista, e temos uma capacidade singular de nos influenciarmos mutuamente, em vários aspectos. Para nossa fortuna, desde a nossa própria Formação, conseguimos trabalhar, pensar e sentir, juntos, de uma maneira interessante. Eu, Tici, Yuri, Paulo, Bruno, Ângela, Lúcia, Silvinha, e, agora, Renan, Léo, Dondon Feitosa e outros, fazemos parte de um mesmo movimento, ou Escola de ACP com raízes Experiencial-Organísmica e Pragmatista. Em comum, fômos todos estudantes na Universidade de Fortaleza e formados pelo Prof. Cavalcante Jr, fizemos Formação específica em ACP sob o referencial das Três Tendências, participamos de grupos de estudo e grupos de pesquisa de base am ACP e na Teoria Experiencial, além de realizarmos diversas incursões intelectuais e vivencias nesse mesmo campo.


Incrível, para mim, retomar os fluxos que originam o Humanismo em Psicologia. É uma viagem muito intensa, que me atravessa como em se tratando de uma peregrinação aos lugares importantes da alma. A possibilidade de estabelecer novos laços, de ser atravessado por novas questões, novos horizontes, novas dúvidas, novas problematizações, novas limitações... Pois é, a limitação, a restrição, ela, também, é algo sempre novo, sempre superável, sempre bem-vinda. A “limitação”, assim como a eternidade do ilimitável, do infinito, trazem, sempre, novos ares de criação, de ampliação, de descobertas, de crescimentos. É interessantíssimo adentrar novos espaços de relacionabilidades e construções. Passei a semana, inteira, com saudades do blog, com necessidade de escritas e partilhas, mas acho que, no meu Organismo, os movimentos ainda buscavam digerir os efeitos inúmeros do viver e do existir. Então, a verdade é que eu não consegui encontrar um lugar, dentro de mim, para escrever... não faltaram reflexões e direções, mas a escrita ainda estava fraca, relutante, vulnerável demais... ou melhor, ela ainda estava sendo “in-scrita” no meu corpo, e, talvez, apenas agora, ela possa ser “e-scrita” no papel. Renan, por exemplo, perguntou-me, hoje, porque eu escrevo em um caderno com linhas de partituras, um caderno de músico... eu mesmo não havia interrogado-me a esse respeito, e, muito menos, deixei simplesmente passar por mim essa vivência, muito simbólica, de que, no Curso de Formação, meu caderno é de música. Quando recebi a marca experiencial embutida na pergunta, levou algum tempo para ocorrer-me que não há nada de errado, e nada de especial com o caderno – para mim, é tão óbvio, que é estranho considerar a pergunta como algo a ser estranhado. É óbvio, na medida em que, as letras, para mim, são apenas partituras.


Quer dizer, a maneira como eu escrevo utilizando-me de palavras não se distingue da maneira como eu escrevo utilizando-me de notas musicais. Na minha experiência, são apenas códigos-fonte, são apenas símbolos e suportes para mediação da eternidade. Uma nota das escalas, uma letra do alfabeto, são o quê, ademais, se não, apenas, um som? Uma tentativa de registro do som? Um conjunto de símbolos/notas musicais aludem uma dada possibilidade de vivência e uma aprendizagem em potencial, a partir da relação entre a produção do autor/compositor e a interação do mesmo com a história de vida do receptor/usuário, tanto quanto um conjunto de símbolos/letras fonéticas aludem uma dada possibilidade de vivência e uma aprendizagem em potencial. Escrever, com notas ou com palavras, são tentativas, diferentes, de valer-se do Poder para estabelecer uma forma de comunicação. (Interessantíssimo! A fotografia, por exemplo, como me ensinou o B. Aboim, é uma escrita com a luz...) Em outras palavras, nesse mundo das interações, mediações e sociabilidades, é através do Poder com o qual, por um lado, alguém busca alcançar e influenciar/modificar o campo experiencial do outro, somado à exigência de que esse outro reconheça e aquiesça esse canal de interação. Minha escrita, portanto, seja uma escrita no papel, seja uma escrita no silêncio (fala), seja uma escrita no espaço (dança, movimento), são convergências para modificar algo, uma tentativa de alcançar a realidade terceira, de modificá-la e modificar a mim própria nessa construção, nessa relação decorrente da interação. Não é, portanto, razão de surpresa para mim, a lembrança, mais ou menos recorrente, de que as letras (as teorias, por conseguinte...) são apenas registros musicais. Elas só virão a impor-se sobre mim, sobre a minha realidade, na medida em que meu Organismo aquiesça. Se ele não legitima, não reconheça, pode existir teoria que for, podem falar o que quiserem, podem mover-se da maneira como queiram, meu Organismo segue em seu funcionamento com outras pontes, relações, registros. A fala, a escrita, os sons (os sonhos), são apenas partituras – que não fazem sentido algum, posto que estão mortas, até que eu as recolha, e execute-as no meu dedilhar existencial, preferencialmente de uma maneira tão íntima, tão radical, tão própria, como quem interpreta uma valsa clássica em pianíssimo. Então, e somente então, o que era código, letra, nota, fria e morta, ganha vida, na medida em que adentra os fluxos de vida na minha Organicidade. Por outro lado, o processo da escrita, da composição e comunicação do sentido, como o faço agora, no exercício de simbolizar as matizes do silêncio, de localizar-me em um percurso dado de territorialidades, rupturas e movimentos, isso também é muito vivo. Não que o uso da letra e do código e da nota musical sejam reféns da morte. Não. Enquanto escrevo, na verdade, enquanto estou vivo, há vida. Que parece que é cessada, no texto-partitura, quando me ausento, me distancio do mesmo, e carrego, comigo mesmo, os fluxos vitais limitados que habitam meu Organismo. Quando se vão os fluxos, comigo e para longe do texto, a sensação como se o livro repousasse, feito criatura que hiberna à espera do próximo alimento, guardado e protegido dentro de uma câmara, de um sarcófago, à espera de sangue novo de cuja circulação proporcione-o (ao texto) uma nova experiência de vida. Parece-me que é também disso que estou buscando ao escrever, ao tentar escrever, agora, sábado a noite. Tentando escrever, para registrar, lapidar, uma nova estrutura, um novo campo – eu diria, uma nova “sonata vital”, uma nova “valsa existencial”... que, mesmo sabendo, irá adormecer por dias e dias frios, distante e esquecida, até que algo vivo novamente a alimente, como eu a alimentei outrora... mesmo sabendo que, eventualmente, essa sonata ou vital, criada no lastro do amor e dos registros vitais que me ocorreram, criada, ela mesma, de uma das minhas costelas, parte da minha carne, emprestada das minhas horas, da minha energia, dos meus nutrientes, dos meus líquidos sutis, da minha aura... mesmo sabendo que, uma vez criada, e repousante por muito tempo, poderá vir a ser encontrada, resgatada, reencantada, poderá, ainda, sucumbir e desaparecer para sempre, para mim sobretudo, e sua energia restituída à Gaia – ela mesma, Gaia, parceira da vida, e maior credora da minha Organicidade. Pois bem, como quem vai parir uma nova expressão da vida, surge um texto, um registro, mediado por um código específico por mim selecionado (letras, notas musicais, linhas de tricô, tintas etc), e na constituição desse texto, estou, eu e o texto, vivos, movimentantes, circudantes de vida e de orbitais, de relações, de conexões, de alianças, de teias de ressonâncias... A experiência acontece, e, novamente, seu campo de ressonâncias é aberto, e algo de novo surge... e o registro da escrita, longe de ser inútil, é, ele mesmo, um projeto e expressão da criação, da manifestação e diferenciação de novas estruturas do viver, de novos trajetos e jornadas a serem realizadas. Eu escrevo como quem oferece parte do sangue, parte da água e parte da própria comida, do próprio corpo, para que um caminho, específico, também esteja oferecido e contemplado. Escrevo para compartilhar mais vida, para viver mais em mim e proporcionar mais vida e movimento alhures.]


Três experiências muito interessantes, provocativas, de ontem para hoje: a aula sobre as Três Tendências, à convite da Ticiana, na Universidade. A palestra, ontem a noite, na série “Humanismo nos Tempos de Hoje”, na Livraria. E, hoje pela manhã, eu diria o “workshop” conceitual sobre as premissas, postulados, culturas e vivências na base do Humanismo. E tantas outras potencializações expressas nas interlocuções... por exemplo, Tici, Hélton e Léo estavam na sala-de-aula e na palestra, Renan e Márcia estavam na palestra e no workshop de hoje. A Karine estava na sala, na palestra e workshop de hoje. Então, existe, em mim, e, de alguma maneira, também para eles, uma sensação de construção, de percurso... Foi muito bacana sentar e preparar uma aula universitária, na melhor acepção do didatismo universitário (que é diferente de fazer uma palestra aberta), sobre as Três Tendência. Foi muito (muito!) bom para mim ter essa experiência, que, me parece, experiência madura/consolidada e “redondinha”, lapidada, de apresentar algo, a um só tempo, de forma COMPLEXA e CLARA. Não apenas claro, sendo dietético, insosso e insipiente, não apenas complexo, sendo confuso e problemático. O fato dessa equação (complexidade e clareza) oportunizar maior compreensão pelas pessoas, permitiu-me usufruir um SIGNIFICADO, de um brilho diferente... ainda não sei precisar, localizar fronteiras, atribuir contorno. Eu gostaria que a tecnologia já fosse capaz de me ajudar, transcrevendo algumas falas, e disponibilizando-as aqui... não tenho, ainda, ferramentas, de maneira que há como escrever tudo. Vou, apenas, mencionar os marcos, referentes às distinções experienciais para cada uma das três Tendências:

* T. AutoRegulação: diz respeito a movimentos experienciais (circunstancialmente) não disponíveis ao Self, mas (potencialmente) acessíveis ao Organismo;

* T. Atualizante: diz respeito a movimentos experienciais (potencialmente) disponíveis ao Self, mas (circunstancialmente) inacessíveis ao Organismo;

* T. Formativa: diz respeito a movimentos improváveis, inalcançáveis, absurdos ao Self, mas passíveis de serem experienciados pelo Organismo;


Dessa matriz, desdobram-se compreensões e intervenções (por exemplo, quadros de incongruência, analisados a partir de combinações, fatores e interações das Tendências).

As palestras, mensais, na Livraria Acadêmica, estão, para mim de modo particular, representando uma oportunidade de costurar e debater intervenções públicas, de realizar uma dimensão muito importante do Humanismo-Pragmatista que é a da transformação e mobilização social (afinal, não é um Humanismo Racionalista-Abstrato, não é um Humanismo-Empírico, Sensível), em uma experiência do social que não se limita aos muros e relações sociais estritamente acadêmicas. É complicado de imaginar que possam, eventualmente, existirem Pragmatistas meramente acadêmicos – na verdade, são scholars, eruditos, intelectuais do Pragmatismo, mas não são ativistas sob um referencial Pragmatista. (O Pragmatismo Americano, desde Peirce, James, Dewey, Rorty está encharcado por uma militância constante e irrefutável a favor da liberdade de crença e de consciência, afinal, liberdade e mobilidade experiencial, estando, portanto, nas ruas e nas praças, nos debates e nas contestações). Talvez, não sem razão, observo que o pano de fundo da Política e do Poder, das Instituições e do Estado, adentrou a discussão, de maneira tão enfática... acredito, por extensão da mesma justificativa, que a minha própria prática, interface e interlocução com a Psicologia do Trabalho, esteja inserida nesse esforço consciente de participar de um número maior das dimensões constitutivas da pessoa, através da Psicoterapia, da Psicologia do Trabalho, da Formação e debates em ambos os campos, das Contestações e Argüições Sociais acerca da vida comum na Pólis. Certamente, Humanista & Pragmatista. Essa junção já me faz muito sentido, pessoalmente à minha escrita, às minhas reflexões e sentimentos, contudo, ouvi-la, emprestada, por exemplo, ao modo com o qual Karine apresentou-me, na última noite, parece ganhar uma borda de ainda maior confirmação, responsabilidade e legitimidade. Psicologia é minha ciência, minha técnica, meu olhar. Minha constituição é como Homem das Letras, como Humanista e como Pragmatista. E decorrente dessas três últimas influências, ainda que, hipoteticamente, não houvesse um campo específico de intervenção do tipo psicológico, ainda assim, eu expressaria minha ética das Letras/Humanidades, do Humanismo e do Pragmatismo com outras formas... Além disso tudo, que, absolutamente, não é pouco para mim, existem as pessoas concretas, seus olhares, suas expressões, suas posições, suas questões, suas observações... existe o debate, a troca.


Saímos da Palestra, e fomos, Silvinha, Léo, Paulo, Yuri, Renan, Cavalcante e eu, jantar no Natural & Leve. A conversa-jantar começou às 22h, e eu cheguei em casa 1h30. Falamos sobre várias coisas, e, novamente, o interesse das pessoas pelo SecondLife canalizou as reflexões em torno das confluências entre Second e First Life, entre o alcance e influência dos registros de um no outro, mutuamente... ótima, ótima conversa. Apenas coincidência? Essa semana, a capa da revista Época, uma revista de circulação nacional, é sobre uma ferramenta virtual chamada Twitter, que se define como um telégrafo virtual. É uma nova forma de estabelecer convivência, de construir redes e partilhas... Confesso que estou interessadíssimo em aprender mais sobre tudo isso, por exemplo, já tenho Orkut, que é uma ferramenta popular no Brasil, e, recentemente, me cadastrei no FaceBook, que é o correspondente ao Orkut, com maior aceitação fora do Brasil – como ainda não tenho “amigos” no FaceBook, não tive a oportunidade de explorá-lo razoavelmente. Ademais, há o e-mail (que, semana passada, no jornal, segundo uma pesquisa realizada, tornou-se uma ferramenta desatualizada para os jovens atualmente, tornando-se, ao contrário, o recurso preferido por instituições – confesso, também, que tenho que pensar mais sobre o que significa a adesão das instituições aos e-mails, significa, talvez, que o e-mail é uma ferramenta que pode, mais facilmente, satisfazer as exigências e manutenção dos fluxos burocráticos?). No jornal de hoje, sábado, há uma matéria sobre a revolução causada desde 1989, com a criação da World Wide Web... da possibilidade de se construir uma Inter-Net. Estou meio chocado! Como é que a Internet tem, apenas, 20 anos? Uau. Algo tão, tão novo, e, em tão pouco tempo, mudou a forma com a qual entendemos a realidade?


Imagine, apenas, que um executivo, com o seu celular do tipo BlackBerry, recebe e responde e-mails, direto do seu bolso, no caminho do carro, durante uma reunião, dentro do banheiro, recebe mensagens de aviso da sua conta particular do banco, tem acesso à rádio e televisão... tudo isso, com base em serviços da virtualidade. 20 anos, apenas!? Minha gente, estamos, realmente, compreendendo o que é mesmo que acontece, nessa Era Pró-Tecnologias, Pós-Epistemologias, Pós-Ideologias? Realmente estamos congruentes para suportar, acessar, significar e experienciar a revolução que está acontecendo? Minha mãe, uma distinta e esclarecida senhora de 56 anos, apenas nesse ano, resolveu aprender “informática”, em um curso para senhoras de idade. Ela está adorando, o professor, as colegas e os recursos da tecnologia. Minha mãe me disse que jamais aprenderia qualquer coisa com o computador se não fosse a motivação pessoal do abandono precoce dos filhos, meus dois outros irmãos, que saíram de casa muito cedo, para residir em Salvador e Cuiabá. (Eu mesmo estou fora de casa desde os 17, ou seja, fazem 10 anos.) Dada a situação de distância e acesso limitado pelo telefone, que é caro, e as viagens, não tão acessíveis à freqüência dos cuidados e desejos maternos, minha mãe decidiu, voluntariamente, procurar o curso para aprender, número um, a pegar no mouse. Veja, para minha mãe (e outras mulheres da geração dela), se quer existe motricidade final, suficientemente lapidada, para tocar e reconhecer o funcionamento sensível do mouse, que dizer, então, de entender o que são janelas, aplicativos, sistemas operacionais. O fato é que minha mãe já estão nos módulos avançados (talvez, esteja há um ano no curso), e já sabe mandar e-mails, para mim, para meus irmãos. Duas vezes por semana, senta, diante do MSN, e conversa, em um dia, com meu irmão (utilizando teclado), e, pelo SKYPE, em outro dia, com minha irmã (utilizando câmera e microfone). Outro dia, recebi um e-mail dela, em uma das manifestações maternas recorrentes de afeto e amorosidade – por e-mail, certo? Minha mãe, também acessou o meu blog, e me comentou, por telefone – por telefone, certo?, que o meu blog é muito complicado... Gente, vocês REALMENTE estão compreendendo o quanto da nossa experiência já é um processo, ou um fluxo de processos que transitam por vias de acoplamentos organísmicos com a tecnologia?


Minha mãe, para amar, para cuidar, para sentir-se exercendo o amor e o cuidado, para dar sentido ao lugar dela de maternidade, para manter-se reconhecendo como uma mulher que cuida dos filhos, NÃO precisa me ver, ela me telefona; não precisa me beijar, ela me manda um e-mail com seus beijos. Ela não precisa, se quer, “ver como estou”, basta ela entrar, pelo SKYPE, e, com o microfone e caixas de som, me ouvir, e diagnosticar minha voz, precisar se estou doente, rouco, cansado, triste, com sono... ela me vê pela câmera, e tem a sensação, muito, muito presente, muito real, de que eu continuo fazendo parte da casa dela, vocês realmente entendem a implicação subjetiva disso? Eu não estou em casa, mas graças aos acoplamentos organísmicos, a cabeça do organismo da minha mãe, continua com a sensação de que “estou em casa”, afinal, ela me escuta, ela me vê, ela briga, brinca, ama e cuida de mim, pergunta como estou, fala como ela está... só que não estou com ela, mas, para ela, estou presente. Para ela, eu e meus irmãos estamos presentes. O Presidente dos Estados Unidos, por exemplo, foi o primeiro Presidente americano a utilizar-se, massivamente, de recursos de vídeo na internet, recursos de textos interativos na internet... ele mesmo, utiliza-se de um BlackBerry que já tinha antes e que, mediante a insistência dele em mantê-lo, a Agência de Segurança americana teve que adaptar e proteger o BlackBerry presidencial (que, por exemplo, por exigências jurídicas daquele país, toda mensagem e texto, inclusive e-mails, enviado em nome do Presidente, precisam ser registrados e documentados). O Presidente usa um BlackBerry. Eu, apenas um psicólogo, tenho uma conta de e-mail no Google. Com essa conta, eu tenho acesso a Blogs que estão armazenados no servidor do Google, o meu próprio Blog dentre eles... tenho acesso a e-mails, armazeno informações – em limites vertiginosamente e cada vez mais superiores... da minha conta de e-mail, meus contatos sabem se estou ou não on-line, com a distância de um cliquezinho, podem conversar comigo e trocar informações, afetos, através do GoogleTalk... também graças ao Google, tenho acesso ao YouTube, e posso assistir vídeos, documentários, filmes, palestras, aulas, diversão... eu posso gravar um vídeo e disponibiliza-lo e, eventualmente, se o meu vídeo obter um fluxo recorrente de acessos, recebo, no meu cartão de crédito particular, uma quantidade de dinheiro real referente ao número de acessos ao meu vídeo – todo esse dinheiro custeado pelas propagandas disponíveis na ferramenta de exibição do YouTube. Em uma parceria entre o Google e o Picasa, existe o GooglePhotos, onde posso criar um álbum que protege todas as minhas fotos do amarelamento e, ao mesmo tempo, permite que outros tenham acesso a imagens que estariam no fundo dos meus baús. Tenho, também pelo Google, acesso ao GoogleEarth, que são mapas, precisos, de satélites, com ruas, direções, posições de casas – o telhado da minha casa, e o meu condomínio, pode ser visto pelas lentes do GoogleEarth. Também pelo Google, tenho acesso ao GoogleScholar, um banco de dados de artigos e informações científicas. Não apenas posso ler artigos e comentários científicos, mas alguns livros estão disponíveis para pré-leitura e consulta, virtualmente, sem que me dirija a qualquer biblioteca ou livraria. Caso eu goste do livro, posso comprá-lo na Livraria Virtual, e chega, pelo sedex, em dois dias úteis. Caso seja esgotado, também pela internet, acesso um Sebo Virtual, e em 15 dias corrido, o livro, eventualmente disponível em um pequeno sebo na periferia da cidade de Curibita, chega, pelo correio, até minha casa. Imagine, então, que meu computador, óbvio, com tantos estímulos e processos, começa a ficar lento, fraco, começa a travar... também pela internet, eu posso comprar um novo computador, desktop ou notebook, por exemplo, pelas Lojas Americanas Virtual. Em um procedimento super simples e prático, também pela Internet eu acesso a minha conta de banco, detalhe – isso tudo acontece durante a madrugada. Da minha conta de banco, verificado o meu saldo disponível, faço uma transferência bancária on-line, às duas da manhã, pela internet, e uma semana depois, a televisão nova, ou o computador, chega à minha casa. Graças ao Google, eu tenho acesso ao Orkut, que é uma plataforma de convivências e conveniências, onde eu crio pastas com minhas fotos prediletas, minhas músicas e vídeos, informações pessoais, troco mensagens, cadastro-me em comunidades específicas e, também, construo minha representação, minha comporalidade virtual, dou contornos e imagem à minha vida e presença virtual, criando, no meu Orkut, um BuddyPoke... com o meu Poke personalizado/customizado, e suas roupas, traços de personalidade, estilo e corpo definidos, passo a expressar sentimentos de amor, gratidão, solidão, cansaço, com outros Pokes dos meus amigos... Também pelo Google, tenho acesso a um localizador, uma plataforma de informações, em todas as línguas, em todos os continentes... posso, eventualmente, propor ou participar de um espaço de interesses comuns, através do GoogleGroups... enfim, a minha experiência navega por um horizonte de eternidades simbólicas.


Se, antes, a experiência navegava, apenas, por universos físicos, mediados por interações concretas, já não há, agora mesmo, como dizer que a experiência... por exemplo, a experiência descrita pelo Rogers, que morreu em 1987, a experiência de Tendência Formativa do Rogers, descrita em 1975... quando o Rogers morreu, GENTE: não havia nem Internet! Vocês realmente acham que estamos falando da mesma experiência, dos meus processos, dos mesmos fluxos experienciais? Se, antes, por exemplo, durante o surgimento das Condições Facilitadoras, já tínhamos um processo cultural e contingencial que, muito embora as Seis Condições Permaneçam as mesmas, ainda assim, elas precisam ser ancoradas, significativas, facilitadas e sustentadas em indivíduos concretos, que tem novos corpos, novos funcionamentos, novas estruturas, que fazem parte de culturas e contextos diversos... não obstante essa constatação, que já é absurda e difícil de ser considerada a partir das exigências mínimas, o que dizer, então, que mais basilar do que a sustentação particular das Condições, anterior mesmo a essa preocupação, a própria noção, extensão, alcance, processos e fluxos experienciais, hoje, agora, enquanto escrevo e minha Organicidade participa do mundo, agora mesmo, graças às Tecnologias dos últimos cinquenta anos (rádio, televisão), dos últimos vinte anos (pós-abertura Democrática, 1988), e, mais recentemente, com as Mídias Sociais (Orkut, Twitter, FaceBook, blogs/fotologs/diários, fóruns, páginas pessoais)... minha gente, hoje em dia, é possível cometer um crime virtual, por exemplo, de calúnia, injúria e difamação, um crime de expressão virtual que produz efeitos na vida “real”, efeitos, sanções, multas, ressarcimentos, prisões reais. Através da internet, de fluxos virtuais, as pessoas são julgadas e presas, na vida real? Pela internet, elas compartilham fotos e delitos puníveis na vida real... e, na vida real, em sua sala de casa, não há registro ou vestígio nenhum de alguém foi sexualmente abusado, de que alguém foi assassinado... mas, na internet, nos fluxos e nas experiências virtuais, encontram-se registros que, justificam, no mundo real, uma prisão. Diga-me, se a experiência virtual não fosse real, haveriam efeitos reais, na nossa vida social, a partir de uma utopia, de uma abstração? Ou os efeitos reais são apenas decorrentes de experiências reais e que, portanto, através da internet, a vida real também acontece?


Um hacker, por exemplo, ao realizar uma experiência virtual (que nunca existiu no mundo concreto! Paara a qual não existe memória física, para a qual não existe marca ou lembrança no mundo dos corpos), é passível de sofrer sanções reais. Sua liberdade física, por exemplo, pode ser restringida. Filmes, Fotografias, Músicas, Textos são produzidos, editados e compartilhados pela Internet, com efeitos reais. Casamentos, por exemplo, hoje, migram para o divórcio, ou seja, apresentam-se ao litígio jurídico, com a participação de advogados e magistrados reais, a partir de uma ação virtual, qual seja, a traição de uma das partes, um flerte, um namoro, um relacionamento virtual, às vezes, inclusive, com as provas de registros de conversas (logs) a testemunhar, com fotografias trocadas e com experiências de sexo virtual intercorridas. Garotos, hoje, foram presos no mundo real – informa-me o jornal – por terem realizados uma “ação virtual”, por terem criado virtualmente um trote, ao divulgarem textos pessoais dizendo que iriam repetir uma chacina na Alemanha. Também no mesmo jornal, nas páginas caras e prestigiadas que seguem à manchete, leio uma sessão inteira, tradicionalmente dedicada às análises políticas, onde quatro debatedores, dentre eles um Deputado Federal da República, o Presidente do Tribunal de Contas do Município, o Secretário da Fazenda do Governo do Estado e o Secretário de Finanças do Município (ou seja, não são pessoas quaisquer, certo?) falam sobre a necessidade de construção de “infovias da transparência”, ou seja, de redes de conexão tecnológicas e informatizadas para o exercício do controle social, pelo povo, a partir de computadores gratuitos disponibilizados com acesso à internet, para que as contas públicas, nos seus aspectos de corrupção ou exagero, sejam monitorados pela sociedade. Eles falam de “PORTAIS” com informações sobre legislação, relatórios de acompanhamento fiscal, cartilhas e manuais explicativos, atividades colaborativas – “o portal também serve como instrumento de relacionamento entre a secretaria e os cidadãos”, diz o artigo do Secretário do Município. No artigo do Secretário do Governo do Estado, encontramos referências ao acesso democrático à internet como uma meta pública daqueles que “desejam um melhor desenvolvimento das pessoas nos tempos atuais”, e seguem argumentos, a favor da internet, correlacionando-a à “notícias, conhecimento, entretenimento e comunicação rápida”. Através da internet, demonstrativos de despesas, recursos de “fale conosco”, ouvidoria institucional, relatórios de análises técnicas para gestores são disponibilizados. A internet não está à serviço, apenas, do institucional, do cultural e do entretenimento – ela também é parte do espiritual. No meu altar, real, na sala de casa, tenho uma vela acesa, e, paralelamente, de tempos em tempos, recebo e-mails com pedidos que velas virtuais sejam mantidas acessas, em movimento, circulando entre contas de e-mails e processos virtuais. Existem orações virtuais, serviços de aconselhamento pastoral virtual, existem, inclusive, serviços de altares virtuais – onde você constrói um espaço, virtual, para guardar suas imagens de afeto, devoção e proteção, e, claro, fazer suas orações e acender suas velas. (Eu realmente gostaria de pensar mais se existe, na minha experiência, alguma diferença entre acender a vela “real” e acender a vela virtual... a vela virtual, em sendo parte da minha experiência, não é, por definição, parte da minha realidade? Não se tratam, portanto, de duas velas, de duas experiências, partes mesmas e diferentes da minha realidade?) Outro aspecto de máximo interesse para mim é que a internet não busca, apenas, espelhar a realidade física, ela, também, pode construir uma realidade própria... imagine que ela não permite, apenas, que corpos esculpidos sejam exibidos, em todos seus lances, nuances, ângulos, extremidades e buracos. Não se trata, apenas, de fotografar e retratar a experiência física... na internet, você pode disponibilizar um corpo artificial, que nunca existiu, com aparências, órgãos e desejos que se desdobram em experiências reais, mas que nunca aconteceram, e não podem acontecer – não são reais. Pode criar uma performance, uma interação sexual, por exemplo, entre corpos que não existem no mundo físico. Como é mesmo que podemos entender a experiência real desencadeada pelo surreal ou irreal? Parece-me razoável considerar que, se o Ideal de Eu e as Condições de Valia, categorias incongruentes – e, por vezes, surreais ou irreais – para a realidade Organísmica, ainda assim, são capazes de produzirem efeitos, resta-nos questionar quais fenômenos tecnológicos favorecem ou não experiências de fluxos, para que possamos identificar quais deles são experiências Organísmicas ou não? Uma experiência organísmica virtual!? O surreal ou irreal – e, por conseguinte, o virtual – pode produzir uma experiência organísmica? Ou essa é justamente a fronteira e o critério, tudo que é surreal, irreal e virtual não passa de Ideal e Condições abstratas... Mas, por exemplo, o “Amor”, às vezes surreal, irreal – e, não menos importante – virtual, não necessariamente o Amor é, em si, Congruente ou Incongruente, certo? Existem possibilidades de fluxos e processos organísmicos nessa experiência do amor e do amar.


Eu gostaria de tornar a conversa um pouco mais difícil, acrescentando que, até aqui, tratam-se, sim, de ferramentas interativas, de vias de mão-dupla de trocas e conhecimentos, de realidades virtuais que complementam ações físicas. Mas, o que dizer, então, da ruptura epistêmica inscrita por uma ferramenta denominada SecondLife? O SecondLife não é um ambiente tecnológico de convivência (como, por exemplo, o Orkut). O SecondLife é uma plataforma completa de rotinas virtuais. O SecondLife é um Segundo Mundo, próprio, com rotinas, procedimentos, processos e, até mesmo, dinheiro próprio. Dinheiro, no caso, transnacional – porque se paga e se movimenta em dólares americanos, com uso de cartão de crédito. No SecondLife, eventualmente, pode existir um logaritmo que interaja comigo e que não precisa ser, se quer, humano – e com quem, por exemplo, posso me relacionar, ou me apaixonar. (Eu não sei, ainda, se esse tipo de processo já existe no SecondLife, mas, por exemplo, já tive a oportunidade de conhecer um “FreeBies”... que é uma experiência, por exemplo, que só existe no mundo virtual, sem correlação no mundo físico. “FreeBies”, tecnicamente falando, seria um comportamento autônomo da personalidade... eu diria, um FreeBies é um complexo que toma a personalidade virtual, e expressa-se em um sintoma não cessa até ser substituído pelo usuário do Avatar... eu conheci, por exemplo, um FreeBies de uma dançarina, então, era um comportamento de uma dançarina, em uma Avatar do sexo feminino, de traços muito bonitos e delicados... e ela dançava, sem parar, sem limites! Esse comportamento custou, orçamentariamente a ela, alguns dólares no cartão de crédito, para o incremento da sua personalidade do Avatar. Se é possível criar uma lógica de programação do tipo FreeBies, é possível, imagino, criar um algoritmo inteiro de comportamento modestos, um Avatar inteiro). Eu não preciso de “provas” de realidade física para que processos experienciais ocorram no SecondLife. Dois pontos para concluir: o SecondLife tem um Humanismo próprio, que se chama “Humanismo do SecondLife (SecondLife Humanism)”, transnacional e transcultural, com bandeira própria e sediado em um território virtual chamado de “Jardim de Roma”, a casa do Humanismo do SecondLife. No “Roma Garden”, todos os Domingos, às 14h no Horário do Pacífico, todos os Humanistas se encontram, em torno do Fogo sagrado de Atenas, para discutir o Humanismo. Tais encontros são convocados por anúncios de e-mails. Não tenho condições, agora, de falar mais do SecondLife... mas é um dos meus fortes interesses de estudo e investigação. Eu mesmo tenho pensado, em que medida, podemos falar de um Pragmatismo Virtual, a partir de uma Experiência Virtual? Se o Pragmatismo tem a motivação de influenciar o mundo, não poderia ser também o Mundo Virtual????? Por enquanto, a única hipótese que tenho é que, até o momento, é preciso existirem os usuários físicos humanos para que a interação tecnologia produza-se e tenha efeitos conseqüências. Porém, não acredito que seja impossível, em um futuro vizinho, que a tecnologia produza uma plataforma de interação que não exija, se quer, o reconhecimento e legimitidade humana, que, simplesmente, não seja Poder, mas se torne fluxo direto, fluxo de interação direto. É preciso ter cautela com a internet - a mim, por exemplo, a facilidade com a qual um arquivo pode ser deletado, ou, simplesmente, ser "perdido" em um processo de transmissão virtual (por e-mail), é dos fatos que me causam receio. Estou imaginando, por exemplo, que não temos garantias, como cidadãos, que determinadas informações ou postagens não sejam apenas filtradas ou classificadas, a partir de um interesse específico (por exemplo, o Governo da China proibe os blos de ativistas contrários ao Governo), mas, sobretudo, a perda cultural iminente e diária que um conjunto de informações e registros da espécie e cultura humana desaparecem, diariamente, na Internet. Surgem muitas novas informações, porém, a minha pergunta é: qual o critério para banir, "para sempre", um conhecimento, um texto, um registro produzido, a partir de uma experiência e plataforma virtual? Porque, antigamente, os registros orais eram transmitidos pela tradição e memória, hoje, estão sendo digitalizados... antigamente, livros eram escritos, diários, documentos, hoje, são "pdfs", e-mails, e-books... e o que acontece quando deixamos de pagar uma conta de servidor? O conteúdo inteiro do blog cai no "vazio" virtual, de onde, jamais, poderemos recuperar aquela história!? Uma coisa era queimar todos os livros de uma biblioteca, geralmente, através de expedientes em governos autoritários, estados de exceção... hoje em dia, não precisa de "exceção" nenhuma, porque o caso comum e diário é deletar, apagar, sumir e desaparecer registros e documentos da história e experiência humana virtual. Essa é uma crítica com a qual teremos que nos haver: dependendo dos interesses e ideologias, corremos o risco real de que apenas informações selecionadas persistam, e as outras serão deletadas, como se nunca tivessem existido, e sem a possibilidade de serem reconstituídas ou restauradas, na medida em que abrimos mão dos registros convencionais.


Curtos-circuitos, acho.

Queria alguém para conversar sobre (tudo) isso...


Houve, também, o início da Formação, que foi incrível e muito significativo. Talvez, de uma próxima vez, fale melhor sobre o que construídos na manhã de hoje... Por ora, segue a programação de atividades na Formação, referente ao módulo de teorização que sou responsável. Planejei contemplar, mensalmente, ao longo dos cinco workshops (4h/cada) desse primeiro semestre (Ouvintes são bem-vindos, basta falar com Karine Ivo: cearacp@gmail.com), os seguintes aspectos:

(Wk. 1) “Não estamos presos”

-- Nascimento da Psicologia Humanista, Divisão 34 APA; Humanismo: Arte, Cultura e História; Postulados, Crenças e Convergências – Resistência e AutoDeterminação; Geografias, Renascimentos, Experiência; a Razão, a Norma, a Interioridade, a Psicologia; Instituições, Rupturas, Contextos de aporte aos EUA, ao Brasil;

(Wk. 2) “Podemos crescer”

-- Psicologia Humanista: Epistemologias, Teorias, Conceitos; Novo Mundo, Velho Mundo, Visões de Homem e de Mundo; o Trabalho de Rogers (1925-29/1940/1950) e o Humanismo em Psicologia (anos 60 e 70); Pós-Guerra, Guerra Fria, Guerra do Vietnã, Mudanças, Contra-Cultura, Contestação, Revoluções Sociais, Ecológicas, Espirituais; Humanismo Americano, Filosofia Pragmatista-Experiencial e Filosofias Continentais;

(Wk. 3) Intumescências...

-- Aproximações entre Humanismo de Rogers e de Maslow (Experiência e Realização); Três Tendências no Humanismo de Carl Rogers, Operadores, Critérios/Descritores, Diferenciações, Complementaridades; Aconselhamento e T.Au., Terapia e T.Az., Abordagem e T.Fm;

(Wk. 4) Florescimentos...

-- Uma compreensão de Vida, Movimento Experiencial, Crescimento e Saúde a partir das Três Tendências; Organicidade, Relacionabilidades, Expansões, Interdependências, Teias; Nascer e Morrer dos Fluxos Experienciais sob o Prisma Formativo;

(Wk. 5) Tosas, Podas e Quebras...

-- Três Tendências e a Diversidade no Funcionamento Humano; Potenciais e Bloqueios ao Fluxo Experiencial; As dívidas do Praticalismo/Instrumentalismo/Utilitarismo, do Superficial e do Pressismo (Tempo de Kronos e Tempo de Kairos), do Individualismo e da Rigidez com a Experiência;


(Desculpe mas, falar de experiência e virtualidade, ainda é tão difícil para mim, que fiquei muito cansado e não fiz segunda-leitura ou revisão na postagem. Fica para depois!)

domingo, 8 de março de 2009

Experiência #008

Não é tão simples e prático facilitar uma "experiência" (Erfahrung), tanto menos sustentar um campo experiencial inteiro... existem ocasiões onde, mesmo concorrendo a disponibilidade e abertura do indivíduo para adentrar os orbitais formativos, ainda assim, não basta... não porque o indivíduo não encontre permissão, mediante sua liberdade, para selecionar em quais situações pareça-lhe cabível expressar ou comunicar-se de um modo experiencial, de uma maneira que lhe resgate, do seu Organismo, um fluxo e uma direção própria em sintonia com a vida. Mas não é apenas isso, não é, apenas, uma faculdade disponível enquanto potencial que bastaria... de que adianta, por exemplo, um indivíduo mergulhar, adquirir novas marcas e registros em sua Organicidade, banhado, portanto, de um caldo espesso de novas e muitíssimo significativas intuições, oportunidades, criações... sem que haja, correspondentemente, um cenário mínimo que dê suporte e vazão para tal ousadia no apropriar e tornar-se mais do que se é? De que adianta, mergulhar e seguir até pontos tão distant...e...s na experiência, no insondável, na abertura... e, depois, imediatamente... ter que tomar banho, colocar perfume, ir para a festa, sorrir, jantar e divertir-se, no dia seguinte, acordar de madrugada, assujeitar-se ao sacudir do transporte público e engatar-se na rotina, na burocracia, na administração de um "outro estilo de vida" que, desconhecendo (e temendo) Erfahrung (experiência), privilegia Erlebnis (vivências)? O que fazer quando o mundo parece favorecer, apenas, meras "con-vivências" de uns com os outros? De quê adianta o sopro da vida dilatar o balão, dilatá-lo, dilatá-lo...? Rachá-lo, enquanto suas estruturas organizam-se, apenas, para conter, reduzir, limitar?

(Alguns, de maneira simplificada, poderiam questionar se esta não seria a razão mesma da experiência: ancorar seus fluxos e sacudir a poeira e ao torpor... ainda que impondo mudanças e vertigens! Muitas vertigens... porque o sopro da vida é o sopro do movimento, e não pode ser estagnado... Talvez, um pouco mais complicado, quando é preciso ter coragem para o mergulho, e na parcela dessa coragem, estaria imbutida a sentinela Ideológica que monitora e não permitiria abrir mão de tantas outras coisas, imaginariamente que ficariam para trás caso o movimento fosse permitido...)

Pois bem, já havia mencionado (em postagens anteriores) que, a experiência (Erfahrung), por definição, exige um substrato de anteparos, de partilhas, de sociabilidades, sendo, portanto, uma conquista do pessoal na interface do social. (Dewey estava certo.) Aprendi que, às vezes, apresentar as credenciais experienciais para certo convívio, em se tratando de pessoas suficientemente esclarecidas a ponto de reconhecer o valor raro dessa oportunidade... ainda que se trate de um convite irrecusável para abertura e crescimento humano, mútuos, ainda assim, adentrar a experiência e sustentar um campo experiencial, que não virá a ser apropriadamente digerido e integrado, cujos efeitos e mudanças não terão ambiência para ressoar e mobilizar mudanças nos demais sistemas e interdependências da vida... facilitar, portanto, "experiência" de maneira (meramente) pontual, em um cenário de temporalidades e geografias de Kronos e banalidades... provavelmente, suportar a experiência de uma oportunidade magnífica e inexplicável de encontro, mas cuja energia do fluxo não pudesse ser canalizada e desdobrada, essa atitude, além de cruel, viria a representar uma onda de vertigens, amarguras e impossibilidades. A menos, talvez, que se trate de uma última cartada para trazer vida ao imobilismo instituído?

Pois é... eu gostaria de menos convivências entre Erlebnis solitários, mais Erfahrung e mais partilha experiencial. Onde é que se encontra disso, nesse planeta?

http://www.youtube.com/watch?v=yWGznRIGkdU

sábado, 7 de março de 2009

Experiência #007

[Sábado, 19h52... Determinei-me lutar, na tarde de hoje, por alguns minutos de boa conversa na agenda alucinante do Yuri. Desde o início do contrato docente por ele assumido, logo nas primeiras quinzenas desse ano, à distância de três dias na semana e muitas horas de ônibus, nosso tempo de ócio e trabalho comum tornou-se empobrecido, em um grau de escassez típico nos períodos mais tenebrosos das secas existenciais. Já que não parece surtir qualquer efeito o meu pedido recorrente de encontro e o registro da saudade persistente, resolvi, eu mesmo, bater à porta dele... e conversamos, entre 15h15 e 17h15, cronometradamente para ele, entre o final de um compromisso e a exigência do seguinte, sentados à varanda, próximos de uma janela de frescor ímpar, com prédios ocupando o horizonte azul em uma tarde nublada. Boa conversa que trouxe paz ao meu espírito. Estranha paz, porque voltei povoado de mais dúvidas, menos crenças, mais aberturas, mais absurdos... e, curiosamente, menos vertigens. O conteúdo das nossas falas estiveram classificados entre duas reticências, perfazendo três blocos holográficos. Isso mesmo: não são holísticos. Existe uma diferença entre ambas definições: no último, busca-se aprender a idéia de que “o (funcionamento do) todo é maior que a soma de partes fragmentadas”. No primeiro, “o todo está contido, faz-se espelhar em toda e qualquer porção ou partes”. Portanto, entre os períodos ocupados de palavras e sons, houve muito significado-silencioso, e, mesmo dentro das palavras, dentro dos intervalos que se escondem nas palavras (porque as palavras, as palavras tem e-s--p---a----ç-----o------s; as palavras não são “sons”, as palavras são classificações diferenciadas para tipos inusitados de silêncios, então, por exemplo, existe o silêncio do tipo “e-s--p---a----ç-----o”, e dentro dessa palavra-armário, existe uma forma particular e especial de silêncio, que distinguimos do silêncio do tipo “e-s--t----r----e-----l------a”, cada palavra é uma tentativa mágica, nossa, humana, de classificarmos a eternidade, o vazio, o silêncio; não sei se vocês sabem, mas entre uma idéia e a próxima idéia, no intervalo, real, entre uma idéia e a seguinte, há um espaço, uma brecha, uma fenda de silêncio e de mistério, entre duas palavras, há um espaço impossível de ser ocupado, que não é “dito” ou ocupado por som algum, e que, espacialmente, não é portador de conteúdo... então, parece que a maior parte do tempo, estivemos falando... mentira! Estivemos, contados os “silêncios explícitos” e os significados-silenciosos implícitos, durante esse tempo todo de silêncio, estivemos nos encontrando e nos atualizando experiencialmente – experiencial e não verborragicamente. Eu gosto muito de costurar silêncios com o Yuri, de modo especial em se tratando de silêncios que aludam questões técnicas, metodológicas, teóricas, filosóficas, éticas, espirituais. Parece que, desde a nossa última conversa, aqui em casa, sobre Organicidade, não se passou muito tempo, não aconteceram muitas coisas... na verdade, entre a segunda-feira passada e a tarde de hoje, já tornada preterida, tudo que existiu entre uma e outra, foi um breve sopro de silêncio, ocupado por alguns ocasionais “significados-silenciosos” (diga-se, palavras). Se as palavras falam alguma coisa, elas traduzem os movimentos do silêncio; se as palavras fazem alguma coisa, elas fotografam o silêncio. Entre segunda e sábado, silêncio... silêncio falávamos na segunda, e silêncio comentávamos, na tarde de hoje. Também abordávamos e criávamos equações com o silêncio. O silêncio, traduzido em suas categorias de significados, produz efeitos incríveis, efeitos mediados por signos/palavras, mas que não aludem coisa outra, se não, um lugar no silêncio do eterno. Navegar no silêncio é preciso. É disso que fazemos em um encontro genuíno, com um amigo, com um cliente. Navegar.]


Vou retomar a idéia do Organismo e das Tendências que o alcançam. Desse feito, irei valer-me do que aprendi com Rorty e Manoel de Barros acerca da necessidade de novas metáforas para inventarmos o nosso novo mundo. Mais uma vez, solicito, por obséquio, a atenção do leitor... parece simples, pode soar bobinho, no entanto, é quase certo que, em menos de cinco minutos, alguém se perca no silêncio que habita entre as palavras...


Imaginemos, conjuntamente, você e eu – e apenas você e eu –, que à nossa frente existe uma poltrona confortável, do estilo “poltrona vovô”, de cor vermelho fosco. A poltrona está em um lugar arejado e agradável, bem iluminado, e faz-se silêncio no recinto. Não precisamos de muitas palavras, para categorizar a variabilidade dos silêncios porquanto, afinal, o fluxo de vida segue desimpedido. Não se trata da existência de um “único” bloco de silêncio – como se o silêncio fosse uma coisa estanque, um objeto finalizado e inanimado –, mas, ao contrário, trata-se de um processo, de um fluxo... Não há barreiras, dificuldades, pontos estanques... havendo, apenas, movimento e criação, o fluxo entre diferentes possibilidades segue mergulhado nos significados-silenciosos, inseridos como parte da noosfera. Imaginemos, então, que nesse contexto de presença, além da poltrona, existe uma forma vida, uma forma, ali, que represente a vida. Qual das formas possíveis melhor, ou mais facilmente, representa uma expressão característica da vida, para você? Pode ser uma árvore, pode ser uma pedra, pode ser o mar, pode ser uma duna, pode ser uma estrela, pode ser o fogo, pode ser um humano? Enfim, uma das expressões possíveis da vida e do universo. Imaginemos, eventualmente, que uma forma humana seja escolhida. Não precisa estar diferenciada por sexo, digamos, apenas, uma forma humana, andrógena, com as qualidades da vida que a distinguem como uma expressão do tipo humana. Essa forma humana, sentada à poltrona, está com seus pés descalços, bem apoiados no chão, e suas duas mãos, descansadas, repousando sobre as pernas. Sentado em postura de vigília e atenção, sem exigir-se esforço. É uma postura, ao mesmo tempo, que oferta grande disponibilidade e não-tensão. Essa forma humana fita o espaço, ela olha, também de uma maneira relaxada, o espaço à sua frente, e seus olhos estão descansados nesse ponto da eternidade. Olhando de fora, da porta que nos introduz à esse ambiente, é como se houvesse um senso de harmonia bastante sutil, muito embora perceptível, entre pessoa e lugar, é como se estivéssemos falando de um único Organismo, de um único campo de vida, estabelecido a partir de inúmeras expressões e processos. Um campo de vida, ou Organismo, onde poderíamos enxergar um conjunto de expressões e de relações entre as mesmas, um conjunto de processos emergentes de cada expressão. Encostado à parede no pórtico de entrada, você e eu, nós também nos colocamos como parte da vida, como membros daquele Organismo, como parte dos seus processos, suscetíveis a sermos por alcançados e afetados por todo o impacto daquela presença de vida. Ainda imóveis – ainda que profundamente remexidos e movimentados, como que se orbitais da nossa subjetividade girassem em uma melodia que entoa movimento, celebração e reencontro... como se a vida se reencontrasse com uma porção da vida, e, de ambas, ressoasse uma melodia de expansão, de complementariedades, de ajustes, de fagulhas mútuas de alquimia...


Então, à porta, percebemos que, muito levemente, como que se fossem braços a transmigrar na geografia intangível da abertura cósmica, os braços da criatura vida movem-se, os braços movem o espaço do universo por inteiro – movem a todo o espaço infinito que se abre no além dos seus braços, e tudo que está, ali, compreendido entre o mistério da vida e interconectado com tudo, ademais, que é expressão da vida... tudo isso, acompanha o movimento, como um manto extremamente lento, flexível, quase solúvel, quase suave... é um tecido intangível, imaterial, de eternidade e de acompanhamento que segue com os braços, que segue, também, com a eternidade que se movimenta nos olhos que estão parados... as mãos sobem no espaço, como que erguidas pelo absurdo e pelo impossível, e uma onda de vida dispara-se, violentamente, do corpo e daquela expressão, comunicando, a tudo mais vivo, que a vida está em movimento e que sugere novas complementaridades... outras expressões, distantes, recebem o impacto daquela radiância do amor, porquanto, afinal, é a vida que se expande, que cresce, que se busca, a si mesma, que se capilariza, que manifesta sua natureza de relacionabilidades e de inteirezas-sempre-crescentes... as mãos do mesmo corpo, as mãos que nunca estiveram separadas no mesmo corpo, unem-se – feito conchas, uma sobre a outra. As mãos que nunca estiveram separadas, posto serem carne do mesmo corpo, são, agora, as mãos ainda ilusionariamente separadas, as mãos que guardam a eternidade. Aparências... a eternidade sempre foi guardada por uma mão, pela outra mão; por uma mão aberta, por uma mão fechada; a eternidade não se perde, não se esgota, não escorre... as mãos, agora, feito conchas, seguram a eternidade. Os dedos estão ligeiramente separados, uns dos outros, de maneira que as extremidades de uma mão tocam, distantes umas das outras, a superfície macia da outra mão. Aparentemente separados, os dedos nunca estiveram juntos – como as letras não estão. Os dedos, embora perfeitamente distendidos e separados entre si, não estão retos, de maneira que se inclinam, levemente, uns para os outros, como quem reproduz uma espiral de afago, uma espiral de cujo movimento é iniciado, suavemente, pela mão superior, e ressoado na mão inferior. As mãos estão em um movimento, um movimento apenas. As mãos fechadas, uma sobre a outra, fecha o circuito desse corpo. Antes, com as mãos abertas, interações, trocas e movimentos poderiam acontecer em cada uma das mãos, impactando a inteireza desse sistema Humano, e do Organismo como um todo (a interação entre humano e tudo mais no ambiente). Agora, com as mãos tocando-se, os canais de comunicação das mãos com o meio foram encerrados um sobre o outro, de maneira que as informações e combinações que vierem por alguma das vias, de uma das mãos, será imediatamente transferida à mão seguinte, permitindo um circuito perfeito de informações em um sistema fechado. Se o leito das mãos tornam-se um, quando as palmas também encontrarem-se, então, o sistema está completamente fechado. As informações que circulam em uma vida são recebidas e codificadas também pela outra. Mudanças, nesse sistema, virão de outro canal, outra extremidade, que não, diretamente, as mãos. Temos, portanto, um sistema (no caso, humano), que teve uma via dos seus processos alinhada com outra extremidade, permitindo a conexão total de um circuito particular. O sistema, em particular, e o Organismo, como um todo, ainda dispõem de outros mecanismos de trocas e interações com o meio, e estas outras vias irão afetar, secundariamente, o tráfego livre de informações entre as duas mãos e o circuito fechado que perfizeram. As mãos são parte do Organismo, o circuito fechado e as características dos processos ali observados também são parte do Organismo. Mas esse circuito, em particular, possibilita um tipo de expressão específica, um tipo de expressão que denominados AutoRegulação. Em outras palavras, uma parte do Organismo, por um conjunto de fatores do próprio Organismo, inicia um movimento particular, inscreve um arranjo particular, mobilizando um conjunto de expressões disponíveis para assumirem uma dada configuração. Quando todos os dedos estão vinculados à outra mão, em um circuito fechado entre as duas mãos, teríamos a possibilidade de um senso muito forte de identidade, senso de si mesmo, expresso a partir de movimentos entre partes diferentes da Organicidade que se associam para expressar uma representação singular. Através dessa coalização, emerge um conjunto associado entre si de características daquele Organismo, perfazendo, no próprio campo Organísmico, uma qualidade de diferenciação, de senso unitário e indivisível. Essa qualidade global na produção de um “si”, a partir do manejo coerente de características do Organismo, possibilita que esse “si” desdobre-se em parâmetros que satisfazem ou agridem as necessidades daquele “arranjo” particular/esquemas de interação – e não mais do Organismo como um todo. No campo da AutoRegulação, podemos facilitar novas configurações de interações entre os pontos e fronteiras que estabelecem o funcionamento característico daquele arranjo particular. Eventualmente, os dedos da mão superior, que tocam a linha posterior na face da mão inferior, podem realizar um movimento de 45, 90, 180 graus, perfazendo outras interações, no conjunto de possibilidades já disponíveis àquele arranjo (as duas mãos não precisam de nada mais, além delas mesmas, para produzir novos sentidos, a partir dos recursos inicialmente disponibilizados, porém, agora, organizados de uma nova maneira). Perceba-se que, muito embora as mãos estejam, diretamente, produzindo novos sentidos, o Organismo, como um todo, não cessa de também trocar informações com o meio (através da visão, do olfato, da audição, do paladar, de outras áreas táteis, da cognição etc) e produzir sentidos ampliados em sua Organicidade total. O fato de existir possibilidades de AutoRegulação em um Organismo, por exemplo, entre as duas mãos, entre os dois pés etc, não impede que o Organismo esteja focado apenas naquela expressão experiência, não existe que o Organismo seja, apenas, aquela experiência, e, muito menos, o fato de existir tal movimento e possibilidade de diferenciação, não indica que esteja alinhada às necessidades e movimentos do Organismo como um todo. Quer isso dizer que algumas formas de interação, ainda que se utilizando de recursos do Organismo, podem ser Incongruentes ao mesmo (explicarei melhor e posteriormente essas situações).


Vamos em frente, nas observações, e imaginemos que, dos dez dedos originalmente interagindo no contato entre as duas mãos, constatamos, agora, após algumas horas, entre movimentos quase imperceptíveis dada tamanha lentidão, que temos seis dedos interagindo (três de cada mão) e quatro dedos livres (dois de cada mão). Temos, portanto, a maioria dos dedos ainda interagindo (três de cinco dedos, em cada mão), e uma minoria de dedos, existentes naquela configuração, porém, que adotaram uma nova função. Temos, portanto, um sistema semi-aberto, de característica preponderamente fechada, mas que já estabelece alguma troca com o meio. Poderia ser apenas um único dedo, enquanto outros nove estariam entrecruzados. O fato é que através desses dedos livres, o sistema semi-aberto, o senso de um “si” e uma identidade, originalmente ali formado, pode, agora, ser capaz de receber novas informações no mundo, diretamente... pode, com os dedos livres, receber uma conexão de outra mão, de outro sistema de duas mãos, de outras expressões que não uma mão, pode, por exemplo, interagir com um bloco de gelo, ou com uma comida quente. A partir dessas interações, o sistema-duas-mãos recebe, imediatamente (sem mediações), novas informações do meio. A esse processo chamados de Atualização. Em outras palavras, trata-se de um processo de crescimento e de mudança originária de novos padrões de relacionabilidade, de novas possibilidades de aquisições que, não meramente, dizem respeito apenas ao sistema em seu funcionamento fechado, rígido, hermético. Mas, às vezes, também a Atualização pode ser Incongruente ao funcionamento do Organismo como um todo. Eventualmente, um dedo que se perceba livre, pode ser amputado pelo restante do sistema-duas-mãos.


Imaginemos, agora, que anoiteceu e tendo permanecido, ali, sentados à porta, despertamos com os primeiros indícios da aurora, e as mãos, originalmente integradas, cinco dedos e superfície da mão, em uma correspondência específica com outros cinco dedos e superfície de mão, agora, depois de uma longa noite, observam-se oito dedos livres, quatro de uma mão, quatro da outra. Poderiam ser seis dedos livres, a maioria dos dedos livres (três de uma mão com cinco dedos). As mãos não estão completamente livre, porquanto permanece um senso de identidade, de conexão, de singularização, entre dois dedos, entre quatro dedos. Mas essa conexão não é a ênfase maior, não é a intenção maior, não é a predominância maior. Existem outros seis, oito dedos livres. É possível imaginar o que significaria para esse sistema-duas-mãos se, cada um, um a um, dos oito dedos livres, estabelecesse novas relações com um conjunto outro de duas-mãos... cada um dos oito dedos, cada um em relação com um outro conjunto de duas-mãos, que, por sua vez, teria também oito dedos livres, os quais também estariam em relação com outros conjuntos de duas-mãos e progressivamente seguiriam as relações... Imagine o que significaria, para o sistema-duas-mãos, em nossa sala, como parte do Organismo que observamos, seríamos capazes de alcançar o impacto dessas interações progressivas para o sistema-duas-mãos em nossas observações originais? Um aspecto importante: aparentemente, o sistema-duas-mãos, originariamente acompanhado por nós, parece estar crescendo em complexidade e interações, em aprendizado e trocas em uma grande rede... mas, ora, não é esse, desde sempre, o estatuto do Organismo, que está inserido em uma teia de ressonâncias com a sala, com o ambiente, conosco que estamos na porta, e com a casa, onde a porta está inserida, e com o bairro, onde a casa pertence, e com a cidade, onde o bairro faz parte, e o país, o continente, o planeta, suas relações entre as estrelas mais próximas, e as relações destas com o centro galático... ora, dizer que o sistema-duas-mãos, finalmente, obteria uma relação mais ampliada, é esquecer que o Organismo, desde sempre, esteve ampliado. Então, duas coisas: do ponto de vista do sistema-duas-mãos, sim, é uma relação mais ampliada, facilitada por vias da Tendência Formativa, e que vai incluir, nessa sua expansão, uma miríade de outras possibilidades, sistemas e processos. Contudo, sob o prisma do Organismo, do qual o pequeno sistema-duas-mãos faz parte, essa é, apenas, uma nova rota, uma nova experiência, uma nova rota para alcançar acessos já disponíveis à sua ressonância organísmica. Não quer dizer algo “menor” ou “banal”, do ponto de vista do Organismo e suas relações com a vida, posto que se trata de uma nova “via”, de novos aprendizados, de novas aquisições... e, por isso mesmo, o Organismo ganha, aprende e expande-se com quaisquer diferenciações em seu corpo – ainda que as mesmas sejam incongruentes?


(Sigamos, alguns passos a frente, antes que se extinga o meu próprio fôlego e, sobretudo, as reservas para oxigenação do leitor. Falta pouco?)


Eu dizia que as mãos sempre estiveram como parte do Organismo, mesmo que não houvessem estabelecido, entre si, um sistema fechado ou um sistema semi-aberto. Mãos “completamente” ou parcialmente livres, “completamente” ou parcialmente fechadas, estão, sempre e apenas, como possibilidades de expressão à medida do bom funcionamento do Organismo. Se, por ventura, o Organismo entra em colapso, ruptura, ou fragmentação generalizada, não se tem notícias de braços ou mãos, desgarradas de qualquer relação com um Organismo, em funcionamento – mãos fantasmagóricas, como as luvas da Família Adams. Se é verdade, por um lado, que o Organismo cresce e aprende com a diferenciação e singularização, com os possíveis desdobramentos emergentes de interfaces e construção de fronteiras entre suas partes, é verdade, também, que estes sub-sistemas, ainda que não diretamente, estão abalizados pelas continuidade nos fluxos de vida que sustentam o Organismo como um todo. Em outras palavras, atentarmos que fluxos Congruentes à Organicidade facilitam trocas, interações e possibilidades de novas ressonâncias entre partes da vida. Por outro lado, fluxos Incongruentes à Organicidade, podem, eventualmente, impedir, obstar, bloquear, suprimir caminhos e estratégias da Organicidade, que se utilizam de vias comuns aos processos do sistema particular, por exemplo, o sistema-duas-mãos. Poderíamos discutir vários, vários exemplos, mas, agora, vou destacar dois processos que, muito freqüentemente, são confundidos no que diz respeito à Tendência Formativa.


De fato, quando falamos da Vida, esse processo difuso que aproxima e cresce a partir das redes de interações entre diferentes gradações de Organismos, é verdade que, nesse campo, estão incluídos processos do Nascer e processos do Morrer. Quer isso dizer que tudo que diz respeito a “nascer” e criar, e tudo que diz respeito a “morrer” e retirar”, tem a ver com Tendência Formativa? Não, nem sempre. Por uma razão: os fluxos de Nascer e os fluxos de Morrer que estão relacionados como processos Formativos trazem, necessariamente, uma característica de promover maior abertura, relação, complementaridade, expansão, conexão, trocas, comunicações... não são, e não promovem, portanto, fragmentação, separação, rigidez. Portanto, o processo, eventualmente, de um sistema-duas-mãos hipotético, de que cria, para um si, um implante com uma substância que exige mais de 800 anos para decomposição, esse processo, é uma agressão, uma obstrução, uma dificuldade aos fluxos persistentes de ciclagem, fluxos da vida. O fato de algo, com essas características, ser criado, não impede os ciclos de vida de regenerarem e interagirem por outras vidas, porém, se existir uma quantidade superior de processos como esses, em volume significativamente superior àqueles que permitiriam a manutenção e a regulação mínima da vida, então, é óbvio, que não apenas o funcionamento do Organismo está ameaçado, com a própria existência do sistema está em risco. Parece simples, no entanto, é possível identificar-se algumas Incongruências Formativas, desse quilate monstruoso, capazes de embargar um canal experiencial ou fluxo organísmico, que, por sua vez, associado a outros desdobramentos de natureza semelhante, é capaz de constituir uma rede inteira de barreiras, estanque e rigidez. É possível, como no exemplo acima, das metáforas do sistema-duas-mãos, haver uma dada expressão, onde apenas dois dedos tocam-se, ou, mesmo, apenas o dorso das mãos tocam-se e, pretensamente, tudo mais “está livre”, “está aberto”... porém, a informação da dor na mão, da dor na junta, da dor e do desgaste pela posição, tudo isso está sendo violentamente suprimido e desconsiderado, anestesiado por um Ideal ou parâmetro de Rigidez. Sou levado a denominar esse processo, evidentemente como uma Incongruência Formativa, e que pode, eventualmente, facilitar um tipo sutil de suicídio vivencial, com ares, pretensamente, de abertura, contudo, que camufla a dor do Organismo em ser podado, limitado, obstruído em seus processos. Basicamente, por conseguinte, estou argumentando que nem todo nascimento de um processo, nem toda finalização de um processo tem a ver, necessariamente, com Tendência Formativa... Tendência Formativa não é o saco de gatos onde se despeja aquilo que não se sabe dizer a respeito. Simples razão: existem muitos processos que não suportamos dizer seus propósitos, não porque desconhecemos, mas porque omitimos seus desdobramentos – por relapso, por ocasião, por casuísmo, por descuido. É preciso examinar antes de dizer que algo surge por graça da T. Formativa. Ao contrário, torna-se um conceito que não é capaz de distinguir nada de nada, que não é capaz de correlacionar nada com nada. Conceito que aceita tudo e que não se aplica a nada. Isso, para ficarmos, apenas, ao nível da T. Formativa, é preciso, também, compreender e fazer os ajustes do que significa Congruência e Incongruência sob o prisma da AutoRegulação e da Atualização, em relação ao Funcionamento Organísmico.


Nessa discussão, existe, ainda, a compreensão de qual seja mesmo o lugar do Humanismo e do Pragmatismo nesse enfoque Experiencial-Organísmico, que é uma outra reflexão, encantadora... mas que não cabe aqui.


[PS: Estava considerando que, discutir e mergulhar na experiência da vida, refletir os conceitos e avançar nas discussões é, para mim, algo da ordem do biologicamente “necessário”... escrever um texto desse poderia me cansar, principalmente em dias de labirintite... acabo constatando que, talvez, minha vertigem seja, justamente, da ausência de mais oportunidades como essa, de situações com as quais possa melhor administrar minha saúde e dar vazão à pluralidade de lampejos e intuições. Gostaria de agradecer a alguns leitores especiais, que sempre acompanham o blog e me escrevem: Helton-T., B.-Aboim, Caroline-A., Érika-R., Y.-Nóbrega, Marcília-S., Ticiana-P., Ângela-A., Luiz Carlos Filho, R.-Hitzschky,... agradeço, imensamente, a oportunidade de conhecer outras pessoas, outros olhares... Feliz Dia das Mulheres!]