(terceiro dia, e a labirintite ainda me aborrece!) A sala de aula, a sala de uma empresa, a sala da psicoterapia... é possível facilitarmos relações organísmicas? A pergunta soa como boba, ou, quem sabe, fácil demais, explícita demais: "é claro que sim". Ok!? Se estivermos certos, vamos tomar, por exemplo, uma sala que tenha objetivos de aprendizagem claramente delineados - digamos, uma sala de aula de Química Orgânica. Poderia, eventualmente, ser uma sala de trabalho, da área Industrial, de uma empresa. É possível, também, imaginarmos uma sala de atendimento de grupo, que recebe clientes encaminhados ao serviço de psicologia. Nas três situações, grupos, por exemplo, com 27-32 pessoas. Podemos imaginar, clientes que não se conheciam previamente, estudantes que chegam, no primeiro dia, à sala de aula de educação de adultos, funcionários recém admitidos para uma nova fábrica, no processo de expansão de um grupo empresarial. Três settings, as mesmas 32 pessoas, que não guardam qualquer relação de parentesco ou intimidade entre si. Idades, formações técnicas, experiências diferentes. São pessoas que estão, alí, compartilhando um mesmo espaço, mas que desempenham papéis diferentes, certo? Digamos que, na sala de aula, tenhamos, em um dado momento, no mesmo espaço, o coordenador, professor, assistente de aula, o líder de sala, o pessoal do fundão, os estudantes mais aplicados, pessoas com deficiências de aprendizagem, além de alguns outros que fazem parte daquela sala mas que faltaram nesse dia. Seus lugares estão vazios, mas é uma lacuna ocupada (para eles próprios, os ditos ausentes, para outros). Na empresa, teríamos diretor, gerente, coordenador, analistas, técnicos, estagiários, terceirizados, fornecedores, acionistas, presidente. Naturezas de interações diferentes que se sucedem concomitantemente. Na sala de psicoterapia, repassaram-nos os prontuários de donas de casa, motoristas acidentados, empresárias de pequenos negócios, jovens drogaditos, seguranças privados, universitários, desempregados. É verdade: em comum, todos são pessoas. Todos deveriam ser encarados como pessoas. Ponto final. Basta encara-los e reconhece-los como pessoas. Esse é o estatuto de dignidade máxima e primeira na ética da Abordagem Centrada na Pessoa. E por isso mesmo, em nome dessa escuta atenta que vai em busca das necessidades e singularidades do outro, descobrimos suas dificuldades e desafios particulares. Observamos que as pessoas, todas elas, são diferentes, e que das mesmas 32, em um contexto, apresenta-se uma faceta da "dona de casa", que em outro contexto, torna-se a imagem da "estudante na sala de adulto", ou, ainda, que pode exercer o lugar de "funcionária". São partes diferentes, de uma mesma dignididade pessoal, que não, necessariamente, comparecem aos três contextos. E os três contextos, por sua vez, com objetivos específicos: sala de aula, sala do trabalho, sala da psicoterapia. Respeitar a pessoa significa descartar o mundo, as demandas e as exigências onde tais pessoas estão inseridas? Fazer de conta que elas não precisam lidar com a "Química Orgânica", fazer de conta que não precisam "Alcançar as Metas de Produção", fazer de conta que não buscam cessar o sofrimento que acomete suas famílias, suas vidas? Centrar-se na Pessoa é conceber uma imagem ideal daquilo que se deve considerar e escutar - e que não compartilhar, necessariamente, do mundo concreto? Centrar-se nas pessoas reais, dos mundos reais, não é facilitar-lhes possibilidades de enfrentamento, ressignificação e transformação para suas eventuais demandas e necessidades experienciadas? Isso, apenas, para falar das pessoas, individuais. (...) Pausa. Na Abordagem Centrada na Pessoa, estamos interessados em facilitar fluxos organísmicos, mediar conexão e diferenciação entre porções da vida. Isso pode acontecer entre o Organismo de um indivíduo, particular, e suas diversas relações, contextos... porém, via de regra, deparamo-nos com o Organismo de um grupo (pode ser um casal, e suas relações comuns; uma família... uma sala de aula... um departamento de empresa... um grupo de psicoterapia... um quarteirão, com seus conflitos raciais, estigmas, violência social... Os grupos podem permanecer "grupos". Outra coisa, é facilita-los, a todos, como uma relação de pertencimento e compartilhamento próprio, um Organismo que, eventualmente, é capaz de expressar qualidades e características próprias, assumir direções próprias, construir alternativas próprias. E que ele próprio, o Organismo, sabe das suas melhores estratégias de manutenção, regulação, atualização e mudança. Vamos, então, construir um ponto comum, com o qual faremos todas as demais inferências. Seríamos capazes de suportar, em nossa experiência real - e não apenas como uma crença, fantasia ou moral cognitiva -, um lugar que enxerga e valida, em nós mesmos e nos outros, que a vida e os Organismos, as diferentes formas e agrupamentos da vida, podem auto-dirigir-se? Seríamos capazes de apostar que a vida é capaz de dirigir-se e expandir-se, a partir da sua diversidade e impresibilidade intrínseca? Existe espaço para que a precipitação, a ansiedade e imtempestividade dos nossos medos e inseguranças possam respirar e dialogar com os movimentos da vida, sem imprimir, impor, exigir tanto controle? Se... e somente "SE"... formos capazes de sustentar essa experiência de intimiade e ressonância vital, melhor dizendo, essa abertura e compromisso interrelacional entre, de um lado, uma dimensão da vida e dos fluxos do universo de cuja a organização expressa-se em mim, e, do outro lado, arranjos e expressões outras da vida que intumescem em suas geografias siderais... Se... e somente "SE"... existir, pelo menos, no meu campo experiencial, uma disponibilidade para adentrar nesse fluxo de crescimentos, de movimentos e de impermanência da vida, fluxo mesmo onde surge e cessa e surge outra diversidade... Então... e somente "ENTÃO"... podemos dar a partida nessa viagem: rumo à facilitação de arranjos formativos, ou disposições de fluxos que possibilitem trocas mais significativas entre as diferentes porções da vida, em vistas de vir a reconhecer, na diversidade, a possibilidade de encontros e ressonâncias, em vistas de construir organicidades em funcionamento mais pleno dos seus potenciais e expressões, em vistas de mediar interdependências e intercomplementaridades, em vistas de permitir transformações nos padrões e fronteiras de contato, na configuração-mesma da vida. O nome disso é Tendência Formativa. Por enquanto, "basta" saber que existem canais e córregos experienciais por todos os lugares, e que a vivência de um impacta o outro, que, por sua vez, alcança um terceiro, e que, por conseguinte, influencia um quarto... que é possível ouvir e reconhecer essa rede de interações. Não apenas ouvi-la, mas deslocar-se para o seu fluxo, nela movimentar-se. Eventualmente, facilitar sua expansão, tornar-se co-partícipe de seu crescimento: tornar-se um Sherpa... Crescer de mais vida! (Certamente, isso não é o que temos chamado Ecologia).
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Experiência #001
Terça de carnaval. (E tenho vertigens, há dois dias). Estamos, cá, eu e Sra. Mar, (ainda) construindo nosso Organismo. Fazem alguns meses - desde setembro, passado. Tenho a impressão que as pessoas não sabem o quão difícil é "trabalhar" com um Organismo. Quero dizer, elas até podem suspeitar que não é das tarefas mais simples "abordar" o todo e às interações dinâmicas do sistema, respeitando-as e facilitando seu crescimento. Existe, inclusive, um número razóavel de cérebros que acham - equivocadamente - que, nós, Humanistas e Pragmatistas, ao considerarmos a expressão experiencial de um Organismo (individual ou coletivo), estamos, alí, a buscar algo inato. Algo hipoteticamente anterior, que existiria antes do nosso olhar, que não foi de alguma maneira gestado. É mentira, por tratar-se de uma produção. Porém, igualmente menos apropriado é considerar que se trate de uma concepção "nossa", de um ponto de vista Antropocêntrico, Narcisista e Ocidentalmente Autoreferente. Não há, por isso mesmo, como desconsiderar o número sem fim de interações, ressonâncias, alianças e interdependências, os laços dinâmicos entre porções distintas da vida, que permitem uma dada expressão singular e que não são vetores exclusivamente "nossos" (não estão sob nosso controle). Se é, de fato, um Organismo, não há como tratá-lo como fenômeno outro, que não, uma rede - eu prefiro dizer, um "grid", um telado experiencial, cujos enodamentos (ou pontos de encontro) são apenas temporalidades variadas para ciclos/movimentos/expressões vitais. Mas, enfim... não é difícil pensar acerca do Organismo-já-instituído e para cujo funcionamento remetomo-nos, apenas, em um momento secundário - seja para contemplá-lo, admira-lo, ou co-participarmos de sua expansão e interrelacionabilidades (por exemplo, facilitando novos fluxos, novas possibilidades, novas superações). Nesse caso, as dificuldades são de outra ordem, em termos de suportar instabilidade, mudanças, rupturas, ambiguidades, indefinições... por vezes, a tensão ante as incertezas... saber lidar com o hábito grosseiro para cristalizar e organizar. Mas o que dizer, então, da matéria bruta ainda não manejada, e que se espera, ou se vislumbra, tornada um campo de interações e movimentos, feita uma parcela da vida? Como é participar da criação de um Organismo? Alguns fatores que devemos considerar:
- Entre o quê ou entre quem dar-se-ão as interações? (Centrar-se na Pessoa não nos isenta de considerar que, no campo das interações organísmicas, existirão diferentes interações, exatamente porquanto existam singularidades).
- O fato dos indivíduos (por exemplo, em um Organismo que inclua um coletivo de indivíduos humanos) serem únicos e diferentes, não exclui a possibilidade de aproximações e compartilhamento de possibilidades de encontros, de pertencimentos e intercâmbios. Diferenças não suprimem semelhanças, semelhanças não abolem diferenças. Nas aproximações, existem semelhanças e diferenças - parece simplório, mas frequentemente não é uma alternativa considerada.
- Em um mesmo conjunto humano, diferenças possibilitam complementaridades, que, por sua vez, facilitam crescimentos. (É a minha diferença que me aproxima da alteridade, é a nossa mútua diferença que, nos distanciando da vivência do outro, permite-nos escuta-lo e aproximarmo-nos, contribuindo para o seu crescimento de uma maneira por ele não acessada). Existiriam "representações" comuns, suficientemente complexas, para manejar, concomitantemente, aspectos das diferenças e das semelhanças?
- Uma vez caracterizados os modos de expressão/comunicação da experiência (que é diferente do inalcancável de caricaturizar os conteúdos-mesmos da experiência), quais interações permitiriam? No que diz respeito aos conteúdos da experiência, trabalhados no seu aspecto geral, temos os tipos Congruentes e Incongruentes. Acerca dos modos de expressão da experiência, precisaríamos de uma combinação entre eixos da Tendência Auto-Regulatória, da Tendência Atualizante, da Tendência Formativa e da Presença.
- Uma vez identificados tais aspectos, precisaríamos, então, considerar fatores endógenos (histórica de vida, escolhas pessoais etc) e exógenos (ambiente, cultura, poder, política etc) que alcançam a tecitura do Organismo.
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