terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Assim eu ouvi


"Era uma velha, aquela mulher.
Quisera nascer de novo.
Vislumbrou, na abóbada kármica,/
um papis e mamis razoáveis.
Pelo seu mérito, trouxe a consciência no veludo do feminino.
Descobriu-se filha/
de uma volição estético-afetiva/
intrínseca aos homens gays.
A moça do eclipse carreou,/
ainda da contabilidade sideral,/
um plus de feminilidade que antes inexistia:
conseguiu suspender o peu de outra vida,/
por essa coisa outra nesta.
Ela vem procurando os seus homens, iguais aos daquela.
A novidade é para ambos:
eles que querem ao exótico dela,/
e ela, que se sentindo meio como era na pele de um deles,/
quer isso que se assemelha, sua pátria,/
mais do que tudo, mais do que eles serão.
Seus olhos marejam com a pegada que deseja,/
e ainda reconhecem, na distância que o corpo levou,/
o jeito certo de encaixar e retorcer aos corpos dos mocinhos.
Eles enganam-se:
com o esqueleto,/
o sem ossinho na bacia dela,/
pobres que não sabem dessa mulher e seu cadafalso.
As mulheres sempre doeram mais que uma penetração."

Assim eu ouvi, eram seus lábios em movimento...
Desamarra, isso que por três vezes quiseram conter.
Seu nome era Gabi. Ela tem sede.
Ruídos saudosos na tua-Clarice,

A.F. § 4-I-2011

domingo, 2 de janeiro de 2011
















A partir de hoje, 1.1.2011,
no território nacional do Brasil,
as Armas da República estão nas mãos de uma Presidenta.
Eu a vi chorar: ativista, torturada e prisioneira.
Que o Destino e a História sejam nossas testemunhas.
Como a salva dos canhões, eu também chorei.

Reveja:
http://www.youtube.com/watch?v=Xy0gsyebdI8

Wishes

(...) may they liberate you from their expectations.

Dzongsar Jamyang Khyentse (Facebook)

sábado, 1 de janeiro de 2011

Baladinha

BALADA DE GISBERTA
Pedro Abrunhosa

Perdi-me do nome,
Hoje podes chamar-me de tua,
Dancei em palácios,
Hoje danço na rua.
Vesti-me de sonhos,
Hoje visto as bermas da estrada,
De que serve voltar
Quando se volta p’rò nada.

Eu não sei se um Anjo me chama,
Eu não sei dos mil homens na cama
E o céu não pode esperar.
Eu não sei se a noite me leva,
Eu não ouço o meu grito na treva,
O fim vem-me buscar.

Sambei na avenida,
No escuro fui porta-estandarte,
Apagaram-se as luzes,
É o futuro que parte.
Escrevi o desejo,
Corações que já esqueci,
Com sedas matei
E com ferros morri.

Eu não sei se um Anjo me chama,
Eu não sei dos mil homens na cama
E o céu não pode esperar.
Eu não sei se a noite me leva,
Eu não ouço o meu grito na treva,
O fim vem-me buscar.

Trouxe pouco,
Levo menos,
E a distância até ao fundo é tão pequena,
No fundo, é tão pequena,
A queda.

E o amor é tão longe,
O amor é tão longe… (…)

E a dor é tão perto.

* * *

http://www.youtube.com/watch?v=61VLuNc1AE4

Storm

Rilke - Eu Vivo Minha Vida

(...)
E tenho estado circulando por mil anos
e ainda não sei se sou
um falcão
ou uma tempestade,
ou uma grande canção.